24/05/2017

Porque o “samui” não faz parte dos paramentos cerimoniais da nossa Escola Shinshû Otani-ha



Este é um esclarecimento que me foi pedido. Muitas vezes ouvi questionamentos de brasileiros, sobre porque não podemos vestir um “samui” debaixo do Koromô (manto, vestes sacerdotais, cerimoniais).

“Samui - 作務衣” significa literalmente roupa de trabalho. É pronunciado tanto como “samu-i” (e não tem nada a ver com 寒い – frio para clima) como também “samu-ê”, ambas pronúncias são aceitas no Japão.

No Brasil vemos muitos monges da linhagem Zen e alunos, praticantes leigos ou em formação durante o Zazen usando “samui”, talvez daí a impressão de que se trata de uma vestimenta religiosa. Originalmente, no Japão o “samui” era a roupa usada pelos monges Zen em atividades de trabalho fora das práticas monásticas, como serviços de atendimento no escritório, cozinha e faxina. Somente no final da Era Edo é que pessoas comuns passaram a usar o “samui”, principalmente por artesãos, fabricantes de macarrão Sobá, cozinheiros, aqueles que trabalham em hospedarias, casas de chá, doceiros, terapeutas de Shiatsu, Dô-in e Anma, e até finalmente, monges budistas. Atualmente é uma roupa de trabalho usado por toda e qualquer pessoa, principalmente pela facilidade de vestir, é usado até mesmo como pijama em hospedarias tradicionais como também usado para participar de Festivais - Matsuri.

No Otani-ha é expressamente desestimulado o uso do “samui” sob o Kan-ê e o Jikitotsu (Koku-ê). O devoto leigo é livre para usá-lo mesmo com o Wagessá.

Quando passamos pela Ordenação, entramos com roupas de leigo (Haku-ê e Kata-ginu) e depois da primeira fase dos ritos, saímos e recebemos de nossos ‘padrinhos’ o Jikitotsu e voltamos para o Goei-Dô onde após declararmos nossos Votos, recebemos o Sumi-Gessá. Todo esse processo representa a morte para a vida mundana e nascimento para o Mundo do Dharma. E as roupas simbolizam essa passagem. Por isso a recebemos como sagrada e sagrado deve ser o sentimento com que vestimos o manto.

O “samui” por se tratar de roupa de trabalho e dizermos que realizamos o ‘trabalho do Dharma’, muitos defendem que o “samui” pode ser usado em cerimônias. Porém, vale lembrar que o “Trabalho do Dharma” nada mais é do que o “Trabalho de Amida”.

No Japão, ouvi de um de meus professores de Ritualística, que somos Shôgon (Ornamentos do Altar) e assim devemos agir. E essa função é tão séria, que a faxina no altar do Mestre Shinran assim como no altar de Amida, é realizada usando-se o paramento Kan-ê. E a nossa instrução foi de que se algum fiel nos inquirisse algo, deveríamos parar o que estávamos fazendo e sentarmo-nos em Seiza (para não ficar acima do fiel) e responder com polidez. Não importa qual o trabalho do Dharma realizado – oficiar uma grande cerimônia ou varrer os tatami – tudo deve ser realizado com plena atenção e máxima dedicação.

Por fim, eu compararia o uso do “samui” com o uso do macacão de mecânico, o uniforme do gari, o jaleco do técnico de análises de laboratório ou o dólmã de chefe de cozinha – todos são uniformes específicos de trabalho. E normalmente não se veste um paramento religioso sobre eles, por isso não deveria se usar “samui” debaixo de um Koromô, pelo menos nas Ordens do Shinshû. 



Sayuri Tyō Jun