24/01/2017

羅刹と雪山童子 (Rasetsu to Sessen Dôji) - O Demônio e o Menino Himalaia



Há muito tempo, num passado remoto, havia um jovem garoto que mesmo tão jovem, se dedicava totalmente às práticas ascéticas, visando o benefício de todos os seres viventes. Por viver na região do Himalaia, esse jovem monge asceta era chamado de menino Himalaia. Era observado pelo Deus Indra, que duvidava da seriedade da busca do Dharma pelo jovem. Muitos diziam que buscavam a Iluminação, mas a grande maioria desistia diante do menor obstáculo, e Indra resolve testar a determinação do menino Himalaia. Assim, transforma-se em um Demônio e aproxima-se do menino recitando parte de um verso proferido por um Buda do passado:
諸行無常 Shogyô Mujô (todas as coisas deste mundo são impermanentes, tudo se transforma)
是生滅法 Zeshô Meppô (tudo que surge, desaparece. Este é o Dharma do nascimento e morte).
O menino Himalaia que ouviu estes versos, sentiu-se plenamente regozijado. Olhou em todas as direções, mas somente um assustador Demônio encontrava-se à sua frente. Deste modo, dirige-lhe respeitosamente uma pergunta:
- Ó Grande Ser, onde você escutou estes versos proferidos por um Buda? Estes versos referem-se ao Ensinamento do Buda sobre o Verdadeiro Caminho que transpassa os Três Mundos do passado, do presente e do futuro. Onde você os ouviu?
- Ó monge asceta, não perca seu tempo me perguntando isso. Estou perturbado, faminto e sedento, por isso falo bobagens.
- Ó Grande Ser, se você me disser a continuação destes versos, eu serei seu discípulo pelo resto da minha vida. Por favor, me ensine o final destes versos.
- Ó monge asceta, eu não consigo falar de tanta fome e cansaço.
- Ó Grande Ser, do que você se alimenta?
- Meu alimento é carne humana e minha bebida é sangue vivo.
- Ó Grande Ser, se me permitir ouvir o resto dos versos, eu ofereço meu corpo para você consumi-lo. Pois mesmo que eu cumpra meu tempo de vida, meu cadáver só servirá para alimentar os pássaros e os animais de rapina. Se for para obter o Satori (Iluminação), prefiro abdicar deste meu corpo.
- Se você me der seu corpo para alimentar-me, eu posso proferir o resto dos versos do Buda.
O menino Himalaia despe-se de seu manto e o oferece para o Demônio sentar-se e ensinar-lhe os versos restantes.
De mãos postas, ouve o Demônio proferir:
生滅滅已 Shômetsu Metsui (Exaurindo-se completamente a prisão do nascimento e morte, o fim do nascer e morrer)
寂滅為楽 Jakumetsu Iraku (Surge a tranquilidade e o silêncio, a felicidade do Nirvana).
Assim que proferiu os versos, o Demônio reivindica o cumprimento da promessa.
- Ó monge asceta, como você solicitou, proferi o restante dos versos, agora cumpra sua promessa e dê-me seu corpo para alimentar-me.
O menino Himalaia satisfeito com o ensinamento, dispõe-se de bom grado a cumprir sua promessa. Porém, sabendo que de nada serviria para as pessoas, simplesmente morrer com este ensinamento, passou a gravar os versos em todas as pedras, paredes e árvores à sua volta de que foi capaz, para assim, beneficiar os seres viventes. Assim feito, subiu na árvore mais alta a fim de jogar-se e morrer, para oferecer seu corpo como alimento ao Demônio esfomeado. Mas antes que seu corpo chegasse ao chão, o Demônio transformou-se novamente em Indra e suspendeu Himalaia no ar, devolvendo-o suavemente ao chão. Assim, Indra prostrou-se aos pés de Himalaia e disse:
- Ao buscar o benefício dos inumeráveis seres viventes, mesmo na profunda escuridão da ignorância, não desejou nada mais do que acender a tocha do Grande Dharma. Você é um verdadeiro Bodhisattva. Se o fiz sofrer, é porque antes de mais nada eu protejo o Dharma. Se você aceitar minha contrição, por favor no futuro, ao alvorecer de sua obtenção do Satori (Iluminação), peço-lhe que me salve!
E assim, o jovem asceta do Himalaia, disposto a morrer para ouvir a metade restante do ensinamento, veio a tornar-se em outra vida, o Buda Shakyamuni.
Estes versos são conhecidos como o ‘Poema de Himalaia’, contido no Sutra do Nirvana.

羅刹と雪山童子 (らせつとせっせんどうじ)
Sayuri Tyō Jun

22/01/2017

Dôjô 道場 – palavra de origem budista



Dôjô 道場 (a pronúncia é Dô-dyô, e não Dojô) 
é o local de prática de qualquer 道, ou seja, caminho de uma Arte. No Brasil é mais conhecido entre os praticantes de artes marciais sérias. A origem da palavra é budista, remontando aos tempos do Buda Shakyamuni.



A palavra Dôjô consta em um dicionário japonês-português de 1603 como sendo “templo do Ikkô-shû” (Ikkô-shû era a antiga denominação do Jôdo Shinshû), ou ainda como “caminho da Terra Pura”. Na verdade, a palavra Dôjô designa o local do Satori (Iluminação) do Buda Shakyamuni. No Japão originariamente indicava especificamente os locais de prática do Nembutsu. Atualmente, mesmo no Brasil, Dôjô tornou-se palavra genérica de local onde se treina Kendô, Judô, Aikidô e outras artes marciais além de todas as artes orientais.

Mas os Dôjô passaram por algumas crises históricas. Para começar, os Dôjô eram locais onde se reuniam pessoas que foram tocadas pelo Nembutsu e manifestavam sua fé. Mais tarde, com a entrada de monges, tornaram-se locais de culto aos antepassados, sendo os rituais de responsabilidade destes monges, e assim passaram a ser denominados de Templos. Os Dôjô que não podiam ou não estavam na categoria de templo, passaram a ser considerados inferiores.
Em 1981, numa alteração da Constituição do Shinshû Otani-ha, o Higashi Honganji passou a chamar-se de “Dôjô Principal”, recuperando o sentido verdadeiro do termo Dôjô. Deste modo, recuperemos o seu verdadeiro significado de “local para a obtenção da Iluminação do Buda Shakyamuni” e “local de prática do Nembutsu”, designações que estão de acordo com o verdadeiro sentido histórico do Dôjô.



Autor: Rev. Kazunari Haniyama – Orientador da Otani Senshû Gakuin

Versão: Sayuri Tyō Jun

Texto adaptado do site do Honzan, sobre a origem budista de palavras japonesas: http://www.higashihonganji.or.jp/sermon/word/word40.html#text03