30/11/2016

Os “ses” da nossa vida, o En e o desapego


Certo dia ouvi numa série de TV a seguinte frase: “Se” é uma palavra pesada demais para conviver.
Nossa vida é pontuada de “ses”: Se eu fosse mais jovem, se eu tivesse um trabalho que me realizasse, se eu tivesse estudado Engenharia em vez de Direito, se eu tivesse casado com, se eu fosse solteiro, se eu não fosse tão sozinho ou tão requisitado, se não fosse tão infeliz... Ou seja, se eu não fosse tão apegado aos meus “ses”, talvez minha vida seguiria corretamente e em linha reta, não tomaria atalhos, não me perderia, não tropeçaria, não me machucaria e não me cansaria. Seria mesmo? (Outro “se” embutido a somar-se indefinidamente).
Parece que quanto maior a quantidade de “ses” na nossa vida, maior o grau de insatisfação. Partindo do pressuposto de que somos criaturas insatisfeitas por conta de nossos apegos, ou melhor, que sempre projetamos nossos desejos para aquilo que ainda não possuímos, ou não somos, podemos entender o quão tolo é o sentimento de apego a coisas, relações pessoais e experiências que temos somente enquanto durar nossa vida.
Costumamos nos questionar como seria nossa vida se tivéssemos feito outras escolhas. E muitas vezes nos apegamos tanto a essa questão que tornamo-nos escravos desse “se”. Por exemplo, quando era mais jovem, surgiu uma oportunidade de trabalho no Japão, mas ainda estava terminando uma pós-graduação. Desisti do trabalho por apego aos meus estudos e depois durante muito tempo fiquei pensando: “E se tivesse ido?” Mas por outro lado, se tivesse ido trabalhar no Japão, seria por apego a um salário melhor, uma experiência no exterior em detrimento ao apego pela vida de estudante no Brasil. Portanto, o meu “se” inicial desdobra-se em novos “ses” em progressão, pois no Japão me depararia com “se estivesse no Brasil?”, assim como fiquei com “se tivesse ido?”. Parece um beco sem saída.
Aqui entra outro ponto essencial da doutrina budista: O En - os condicionamentos, que nos levam a fazer uma escolha toda vez que a vida assim exige. Toda escolha que fazemos, é decorrente de uma cadeia infindável de condições e acontecimentos, que muitas vezes sequer tomamos conhecimento. Se a escolha foi ou não certa, dependerá dos frutos resultantes e de como reagimos – ou seja, se consideramos boa ou má. Mas certa ou errada, aceitável ou não, tanto a escolha quanto o seu fruto são decorrência daquilo que achamos, dentro dos nossos limites à época da tomada de decisão, o que seria o melhor para nós mesmos. Julgar nossos atos passados do alto de uma sabedoria adquirida ao longo do tempo – ou seja, quando nos achamos menos imaturos – é fácil. Difícil foi tomar uma decisão em meio a inúmeros “ses” que a inexperiência nos impôs.
A vida, impermanente que é, exige escolhas originárias ou decorrentes de nossos “ses”. E nossas escolhas são decorrência do En – condicionamentos, que são pessoais, familiares, hereditários, sociais, geográficos, micro, macrocósmico, etc.

Portanto, enquanto viver minha condição vivente, continuarei encarando meus “ses”, tentando me desapegar daquilo tudo que não levarei para a Terra Pura. Tomando decisões e aceitando o En que me traz as bifurcações pelo caminho, assim como esse mesmo En indicará minhas escolhas. E tudo se torna um pouco mais leve ao reconhecer que a projeção da minha vida repleta de decisões,
arrependimentos e apegos estão no âmbito do Samsara, do qual podemos nos libertar através do Hongan – o Voto Original do Buda Amida.

Sayuri Tyō Jun

26/11/2016

“Para tornar-se um monge, antes de mais nada você tem que ser um bom praticante”

“Para tornar-se um monge, antes de mais nada você tem que ser um bom praticante”, é uma frase recorrente do Rev. Wagner Haku-Shin, para aqueles que pleiteiam entrar para o caminho monástico da nossa Escola Shinshû Otani-Ha. Aliás, é um sábio conselho que os requerentes deveriam efetivamente praticar, antes de permitir que o ego credite-lhes que é tão bom praticante que deveria alçar o próximo degrau e passar para a fase seguinte, a Ordenação.
Mas hoje, o meu ponto é sobre a palavra praticante. Particularmente, em minhas traduções gosto muito da palavra ‘fiel’ e faço mais uso dela do que ‘praticante’, que me remete mais à palavra ‘gyôja’ 行者 de ‘shugyôsha’ 修行者 (aquele que se dedica às práticas ascéticas do Budismo, principalmente os Yamabushi 山伏 do Shugendô 修験道). Em japonês, assim como em português, temos várias palavras possíveis para praticante, crente, fiel, ou devoto.
‘Shinja’ 信者 (aquele que crê em uma religião, membro de uma associação religiosa), ‘shinto’ 信徒 (adepto, seguidor, devoto, discípulo), além de palavras semelhantes como ‘shûto’ 宗徒 e ‘shinpôsha’信奉者.
Mas minha palavra preferida é ‘monto’ 門徒 (tanto o fiel, o discípulo e o monge que pertencem a uma determinada Escola Budista). A palavra ‘monto’ nos dicionários, especifica o fiel do Jôdo Shinshû. O Kanji ‘mon’ 門 significa entrada, casa, clã, família, grupo, Dôjô, local onde se aprende, onde nasce tudo, ponto primordial, portal. E o Kanji ‘to’ 徒 significa caminhar, vazio, descalço, desprovido, trabalhador braçal, categoria militar de soldado que não monta a cavalo, discípulo, servo, criado, empregado, caminhante, prisioneiro, condenado, inútil, em vão, pessoa comum, travesso, malandro.
Logicamente, poeticamente a palavra ‘monto’ 門徒 designa aquele (discípulo) que caminha para adentrar os Portais do Ensinamento (Budismo), sem distinção entre leigos e monges, onde todos somos discípulos e aprendizes.
Em português, como já disse, gosto mais da palavra ‘fiel’ do que praticante, devido aos seus desdobramentos como fidelidade, fidedignidade. Pois implica em compromisso, uma aliança com o EN de ter se encontrado com os Ensinamentos do Shinshû.
Altar Shinshû do Rev. Jean Tetsuji

Sayuri Tyō Jun