10/06/2016

Uma reflexão sobre nossas vidas como resultado de acontecimentos anteriores ao nosso nascimento



Dias atrás, estava assistindo um episódio muito interessante (Número 198 “Turn, turn, turn” – De volta no Tempo, com participação de Taylor Swift) de CSI, em que o personagem Nick Stokes ao final do dia se pergunta incessantemente: “Por que ela morreu?” A construção do episódio é retroativa, o personagem rememora um caso ocorrido um ano atrás, até o presente, nos mostrando cronologicamente o encadeamento de uma série de acontecimentos que culminam com a morte de uma jovem de menos de 20 anos. Ao questionamento de Nick, responde o CSI Langston: “Isso não serve de consolo, mas ela morreu por causa de uma série de eventos que ocorreram muito antes dela nascer.” Uma resposta, eu diria, muito budista, ou muito Shinshû.

É certo que nós, deparamos quase que diariamente com eventos que nos entristecem profundamente, principalmente por fugirem do nosso controle e do nosso senso comum de que coisas ruins também ocorrem com as pessoas boas. Ou seja, gostamos da ilusão de que coisas ruins só ocorrem com pessoas más, pois são merecedoras. Em contrapartida, nos iludimos mais ainda com a falsa lógica do faça o bem para que você receba coisas boas. E por favor, eu não estou dizendo que tanto faz fazer o bem ou o mal, pois que o resultado é incerto mesmo. Pois o Budismo prega logo de início, 3 princípios básicos: “Pratique o bem, não pratique o mal e purifique sua mente”. Mas quero ressaltar que o silogismo onde a premissa maior é: Sendo uma boa pessoa recebe-se boas coisas; a premissa menor: Eu sou uma boa pessoa; conclusão: eu mereço receber somente coisas boas. – Não funciona!

Nossa própria concepção de ser uma pessoa boa, é no mínimo, duvidosa. Somos tendenciosos, imparciais e passionais em tudo que precedemos com pronomes possessivos (meu, minha, nosso e até o seu, desde que você esteja vinculado a mim). Tudo e todos que se referem ao nosso círculo mais estreito de nosso mundo revela nosso apego e a posse do ego. Em outras palavras, somos possuídos por tudo que nosso ego se conecta por força do apego. E assim, quando algo ruim acontece conosco, logo pensamos: O que fiz de errado? Por que estou sendo castigado? Eu não mereço isso. Enfim tentamos justificar os acontecimentos atrelando-os aos nossos juízos de valores.

E o que fazer diante de um evento injusto como a perda de uma jovem vida? Dano colateral? Perda necessária? Vítima inocente? Lugar errado na hora errada? É claro que nada disso traz algum consolo, pois mesmo como meros expectadores, nos sentimos injustiçados e traídos.

Enquanto rascunhava este texto, soube de um trágico acidente que causou comoção no país inteiro. Um ônibus com 46 jovens estudantes tomba na Rodovia Mogi-Bertioga, com o saldo de 18 mortos. As imagens do ônibus sem o teto faz pensar em como alguém poderia ter sobrevivido a tamanho desastre. Que culpa tinham esses 18 jovens para morrerem de forma tão súbita, no auge da juventude? Nenhuma, é claro. A não ser o fato de estarem estudando em universidades de Mogi e voltando para suas casas, alguns estudando para melhorar suas próprias condições de vida e de seus familiares, através dos estudos, do conhecimento, da aquisição de uma profissão futura, outros já trabalhando, arrimos de família, sonhos acalentados, sonhos interrompidos numa manobra mal sucedida que rompeu laços de família, laços de amizade, o futuro vislumbrado de uma formatura, de um emprego, de um casamento, de uma casa, um carro, de ter filhos, netos, enfim uma vida longa. Que mal eles cometeram? Mais constrangedor que essa pergunta seria aplicar a lógica do “o bem para os bons” naqueles que sobreviveram. Seriam eles melhores, ou merecedores de sobreviver do que aqueles que morreram?

Como disse o personagem Langston, “não serve de consolo”, mas o encadeamento de eventos, o entrelaçamento de EN (condicionamentos) que termina por manifestar-se em determinado resultado nada mais é do que o andamento de nossas vidas. Nossas vidas com nossas escolhas, os caminhos que se abriram ou se fecharam, os laços que reforçamos ou abandonamos, são condicionamentos, são o EN manifestando-se momento a momento, e seus resultados, bons ou ruins (dependendo de nossos juízos de valores, da nossa régua ou balança interior) resultam de coisas que na maioria das vezes foge do nosso conhecimento. Somos afetados por acontecimentos, fatos que ocorreram muito antes do nosso nascimento, se retrocedermos 25 gerações, cerca de 700 anos em nossa linhagem ancestral direta, somente em linha vertical, teremos o surpreendente número de 33.554.432 de ancestrais... cada qual viveu tempo suficiente para deixar herdeiros e cada um de nós aqui recebeu de alguma forma o legado de todos que nos antecederam. Cada pensamento, cada palavra e cada ato dos mais de 33 milhões de nossos avós, de alguma forma influenciam aqui e agora as nossas vidas. Vivemos sobre a Rede de Indra, conectados a uma falsa ilusão de que controlamos tudo, de que a Vida nos pertence.

Quando não há respostas confortantes, sempre recorro ao trecho final da Carta da Ossada Branca do Mestre Rennyo: “A fragilidade do ser humano nem sequer estabelece distinção entre idosos e jovens. Assim, todos devem ter em mente a questão extremamente grave que é a futura libertação do ciclo ilusório dos nascimentos e mortes, confiando profundamente no Buda Amida e recitando o Nembutsu. Salve! Salve!”.


Revª. Sayuri Tyō Jun

10-06-2016

Curva na rodovia Mogi-Bertioga onde capotou o ônibus dos estudantes.

09/06/2016

Aos maus é que é destinada a salvação - 悪人こそがすくわれる



Rev. Futoshi Takehashi (Shaku Kôshû)
Tradução e notas: Sayuri Tyô Jun



Príncipe Ajase (Ajatasatru), o personagem principal da "Tragédia do Castelo Ôsha (Tragédia de Rajagriha)", constado no prefácio do Sutra da Contemplação da Vida Imensurável, proferido pelo Buda Shakyamuni (Bu’setsu Kan Muryô Ju-kyô), é descrito como o grande malévolo difamador do Dharma que matou o próprio pai e tentou ferir o Buda, incorrendo nas Cinco Perversidades (Gogyaku) [1]. O Mestre Shinran, citando o Grande Sutra do Pari-Nirvana (Daihatsu Nehan-gyô) em sua obra "Florilégio de Passagens sobre a Doutrina, a Prática, a Fé e a Realização Verdadeira da Terra Pura" (Kyôgyô Shinshô) no capítulo sobre a Fé (Shin no maki) prega sobre a salvação de Ajase, nos esclarecendo assim a questão do Shinjin [2].

Ajase, é ilustrado como um Icchantika (I'ssendai), ou seja, "aquele que não tem salvação, independente da vontade do Buda".

"A salvação daqueles que não podem ser salvos" - ou seja como os maus (Akunin [3]) podem adentrar o Caminho para tornar-se um Buda, este é o conteúdo do Shinjin para o Budismo Shin.

No entendimento do Mestre Shinran, em suas citações contidas no Kyôgyô Shinshô esclarecem o significado das palavras no 18º Voto do Bodhisattva Dharmakara (Hôzô Bosatsu) descrito no Kan Muryô Ju-kyô: "Todos os seres viventes serão salvos, todavia excluem-se os que cometeram alguma das Cinco Perversidades e caluniar o Dharma Verdadeiro". Para o Mestre Shinran, a salvação de Ajase é a própria salvação, a salvação de si mesmo.

Em verdade, o próprio Mestre Shinran tinha plena consciência de que as Cinco Perversidades mais a Difamação do Dharma Verdadeiro são motivos para o afastamento da Salvação.

É inequívoco que a 'salvação dos maus' é a grande marca do Budismo Shin. Porém, isso não foi um pensamento exclusivo dos Mestres Hônen e Shinran. Na verdade, o Budismo desde o início teve como uma de suas temáticas a questão da “Salvação dos maus – a Salvação de Ajase"

Existem muitos Sutras que discorreram sobre a salvação de Ajase. Nesses Sutras é pregado que a salvação de Ajase se deu porque ele "obteve a Fé Mukon [4]", diz-se que no que se refere a Ajase, o Shinjin é infundado. E é exatamente aqui onde se encaixa o "Shinjin recebido de Amida" ensinado pelo Mestre Shinran.

Nós costumamos pensar que existe um Buda em algum lugar e que possivelmente nós vamos acabar encontrando-o. O que nos é revelado através da palavra Jikaku (tomada de consciência, despertar) é o esclarecimento do quanto estamos equivocados, pois nós mesmos decidimos o que é bom e o que é mau, e dentro dos limites desta extensão, colocamos o Buda e a nossa Salvação, sem duvidar de nada.

Só passamos a ser chamados de Akunin (maus) porque nos encontramos com o Buda, além do mais, a tomada de consciência de que se é mau é a evidência de que nos encontramos com o Buda. Por nos encontrarmos com o que é verdadeiro é que compreendemos que somos falsos. Tanto o eu que procura ouvir o verdadeiro Ensinamento, como aquele que nem sequer pensa em tornar-se um Buda – ambos se constituem na figura que sou eu mesmo.

Excetuando-se o despertar para esta forma ou figura de mim mesmo, não temos nenhuma base para a constituição do Caminho Búdico. Nisso consiste o Shinjin do Budismo Shin manifestado através da palavra “Namu Amida Butsu”, marca esta de que o Budismo Shin é essencialmente Budismo.

O Caminho Búdico onde se encontrava profundamente imerso o Mestre Shinran, através e a partir da percepção de que não somos seres dignos de salvação, sobrepujou todas as eras do tempo, e está diretamente conectado aos Ensinamentos proferidos pelo Buda Shakyamuni.


 Publicado na revista “Tomoshibi” edição março 2010



[1] As Cinco Perversidades: I. Matar o pai, II. Matar a mãe, III. Matar um Mestre, IV. Perturbar a harmonia da Comunidade Budista e V. Derramar o sangue de um Buda.


[2] Fé, Fé Verdadeira, Coração/Mente Confiante.


[3] Segundo o Tannishô, o "mau" para o Mestre Shinran, é aquele que, através de uma severa autocrítica, se reconhece como incapaz de atingir a perfeição através de seu próprio esforço, dadas as suas inúmeras imperfeições e limitações. Em outras palavras, o "mau" é aquele que reconhece a contingência do Ego e portanto toma consciência da impossibilidade de se atingir o Eu Real e Absoluto a partir de esforços efetuados pelo Ego.


[4] Mukon: Literalmente "sem raiz". Aqueles que não tem "En" laços de afinidade com o Caminho Búdico.






悪人こそがすくわれる
(竹橋 太 -釈孝修)
阿闍世と言えば『仏説観無量寿経』の序分に説かれる、「王舎城の悲劇」の一方の主人公で、父を殺し、仏を傷つけ ようとした五逆、謗法の大悪人です。宗祖親鸞聖人は、『大般涅槃経』を『教行信証』「信巻」に引用して、その阿闍世のすくいを説かれて、浄土真宗の信心を 明らかにしておられます。そこで阿闍世は「一闡提」といって、「仏がすくおうと思ってもその手がかりがない者」としてえがかれています。「すくわれないも ののすくい」、つまり悪人がどのように成仏道に立てるかということが浄土真宗の信心の内容だということなのです。
『教行信証』のこの部分はまた、『仏説無量寿経』に説かれる法蔵菩薩の第十八の願の「すべての者をすくうけれども、ただ五逆と正法を誹謗したものを除く」 という言葉の意味を明かしている、と宗祖が受け止めていらっしゃいます。宗祖にとって阿闍世のすくいが自らのすくいであるということです。それは実は、同 時に自らも、すくいからもれるべき五逆と謗法のものであるという自覚に立っているということでもあります。
このような「悪人のすくい」が浄土真宗の大きなしるしであるのは間違いありません。しかし、このことは実は法然・親鸞のお二人が特別に考えられたことなの ではないのです。仏教は実はその初めから「悪人・阿闍世のすくい」を一つのテーマとしてきました。阿闍世のすくいを述べた経典がたくさんあるのです。そこ で阿闍世のすくいは「無根の信を得た」と説かれています。阿闍世の側には根拠がない信心だというのです。それはちょうど宗祖がおっしゃる「阿弥陀さまから いただいた信心」のことです。
私たちはどこかに仏がいて、それに自分がであうのだろうと考えています。「自覚」という言葉で示されるのは、善悪を自分で決め、その延長に仏やすくいをお いて疑いもしない、そういう偽りが照らし出されることです。仏とであったから悪人と名づけられる者になるのですし、また悪人であるという自覚こそが仏とで あった証拠なのです。真なるものとであうから偽であることがわかるのです。正しい教えを聞こうとも、仏になろうとも思ってもいないのが私のすがたです。そ ういう自分のすがたに目覚めること以外に、私たちに仏道が成り立つ根拠はありません。このことこそが「南無阿弥陀仏」という言葉で示される浄土真宗の「信 心」であり、仏教であるしるしなのです。
すくわれる者ではないという自覚から深められていった宗祖親鸞の仏道が、時間を超えてまっすぐお釈迦さまの説かれた教えにつながっています。

(『ともしび』20103月号掲載)