29/12/2016

O que deve ser dito, deve ser dito a quem se deve dizer



Texto na íntegra em japonês: http://yaplog.jp/takimotokousei/archive/1129
Autora: Revª. Kousei Takimoto (Nitiren-Shû)

Versão: Revª. Sayuri Tyō Jun



Meu nome é Takimoto.
Gostaria de relatar algo que aconteceu agora há pouco, no supermercado em frente do meu escritório. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Foi um precioso ensinamento para a vida.
Andando pelo interior do mercado, uma idosa senhorinha, empurrando um carrinho, me indaga.
- Este café, é daqueles que diluímos na água quente?

Ela queria comprar um café em pó instantâneo. Mas o café que ela tinha nas mãos era do tipo usado em cafeteira elétrica.
- Senhora, não é esse não, é este aqui (apontando-lhe uma embalagem de café instantâneo). Tem preferência por alguma marca? E assim, ela me diz:

- É esse mesmo?

- Sim, é sim. A senhora quer aquele café que misturamos com água quente e mexemos com a colher, não é? Então é esse mesmo.
- Mesmo? Tem certeza?

A senhorinha, preocupada, vira e desvira a embalagem de café nas mãos.
E quando vejo, lágrimas lhe afloravam nos olhos.
- Já tenho 82 anos e sofro de demência senil, por isso fico tão insegura...
- Mas sabe que eu também me esqueço de muitas coisas, já comprei o café errado muitas vezes, até que finalmente consegui guardar na cabeça a embalagem do café (risos).
- É mesmo? Mas então é esse café mesmo né? Posso levar esse sem erro?

A senhorinha repetia a pergunta várias vezes para que eu confirmasse a escolha correta do café instantâneo.

- Sim, pode levar esse, com certeza. Disse-lhe apertando sua mão, e levei um choque quando ela me respondeu derramando lágrimas:

- Então, se eu comprar esse café, meu filho não gritará, zangado comigo?

Meu coração se apertou quando ela revelou a razão de sua insegurança.
- Ele não gritará comigo, “comprou o café errado de novo? Vai logo trocar! ”...?

- A senhora queria o café que a gente põe na xícara, mistura com água quente e mexe com a colher, e não o café daqueles de coar, na cafeteira, não é?

Perguntei assim novamente, deliberadamente sem fazer uso da palavra “instantâneo”, (uma palavra de origem estrangeira que talvez ela não compreendesse) para ela poder me confirmar novamente.

- Você é uma pessoa muito carinhosa. Meu filho sempre grita comigo, eu que sou sua mãe, vivo com ele e sempre aflita...
A senhorinha segurava minha mão entre suas mãos, chorando.

- E se um dia eu ficar tão dependente..., e quando não puder me limpar sozinha..., mas se puder ao menos ir ao banheiro sozinha... quando penso nisso, fico com tanto medo... que nem quero mais viver...

Então descobri ali uma profunda história pessoal.
Como estava com tempo, acompanhei todo o tempo necessário que durou as compras da senhorinha.
- E papel higiênico? Simples ou duplo?

- Meu filho sempre se zanga dizendo que o simples é melhor.

E eu ia perguntando-lhe:

- Carne de frango, peito ou coxa? E Tofu?

A senhora, durante todo nosso diálogo, enfatizava que o ‘filho isso, o meu filho aquilo...’
Foi um encontro de uma hora e meia no supermercado com essa senhora.
Depois de pagar as compras no caixa, ao nos despedir, ela me disse:

- Muito obrigada, será que comprei tudo certo? Meu filho não vai se zangar né?

- Não se preocupe! Seu filho, é uma boa pessoa, não é? Pois ele lhe pede para fazer compras, preocupando-se em fazê-la exercitar-se um pouco, e não ficar parada em casa né?

- Meu filho... ele na verdade é uma pessoa muito boa. Então, Sayonara!

Com um sorriso triste, foi-se caminhando devagar.
Me sentia como se tivesse um nó no coração. Parecia que estava distante da realidade.

Ao sair do supermercado, era como de voltasse repentinamente para o meu tempo real e cheguei a hesitar um pouco.
Neste momento, ouvi:

- Ehh..., com licença...

Um senhor, provavelmente na casa dos 60 anos, dirige-me a voz hesitante. Penso comigo mesma, o que será agora?

- Muito obrigado por amparar e acompanhar minha mãe esclerosada.
- Hã? Quem é você?

Ele me explica que é o filho da senhorinha que acompanhei no supermercado. E me explica que como sua mãe demorava para voltar, preocupado, foi busca-la. E me viu, uma completa desconhecida, acompanhando atentamente sua mãe.
E que estava cuidando dela de longe, observando-a fazer compras.
E ouvindo a voz de sua mãe referindo-se várias vezes a ele, com os olhos vermelhos, disse que o episódio o fez refletir enormemente.
Despedi-me dele com um conselho, diga para sua mãe: ‘Que café gostoso’ e tome o café com ela.
Ele foi embora correndo atrás da mãe.
Foi como uma cena de cinema. Um verdadeiro drama humano.
Acho que nós somos criaturas que não conseguem transmitir nossa gratidão àqueles a quem mais devemos ser gratos.
Estranhamente tensos e desconfortáveis, não conseguimos manifestar nosso carinho por alguém.
Sinto uma espécie de auto aversão, toda vez que assim me reconheço.
No Budismo, diz-se que não há forma mais estúpida de comunicação do que o uso das palavras.

Palavras não são ferramentas perfeitas. Sempre haverá diferenças de interpretação entre os interlocutores.
Seja para dizer o quanto algum filme é maravilhoso, seja para transmitir a impressão de quanto uma comida é deliciosa, não conseguimos realmente expressar em palavras.

Porém, é muito importante expressar nossas impressões de como ‘foi maravilhoso’ ou ‘estava muito gostoso’.

As pessoas costumam dizer: “Serei compreendido mesmo não dizendo nada”. Mas pensar que ‘mesmo não falando nada, os outros entenderão’, é ilusório, pois é justamente esse ‘nada’ que precisa ser dito.

Palavras que devem ser ditas, precisam ser transmitidas quando e para quem precisa ouvi-las.

Quando assim compreendi minha experiência, já era início da tarde.
Penso em manter esse ensinamento firmemente gravado no meu coração.
"Dizer o que tem que ser dito, na hora que tem que ser dito, para a pessoa a quem se deve se dizer". Caligrafia da autora.

20/12/2016

Otani Senshû Gakuin – Escola de Especialização Otani





Criado com o objetivo de formar Mestres[1] da Ordem Otani, o Senshû Gakuin como escola de especialização, é responsável pela formação de muitos Mestres. É um local onde professores e alunos convivem juntos, diariamente face a face, vivenciando e aprendendo Budismo. Em março deste ano, as instalações do Senshû Gakuin de Yamashina em Kyoto foi reinaugurado após reformas, iniciando um novo caminhar.
[1] Kyôshi 教師 – Mestre da Ordem Shinshû Otani-ha, é aquele que tem Ordenação plena e possui licença e habilitação para exercer difusão do Dharma e capacitação em Ritualística.

A Otani Senshû Gakuin é uma instituição voltada para a formação de Mestres da Ordem Shinshû Otani-ha, fundada em 1924 dentro das instalações da escola secundária do antigo sistema, localizado na região de Kumano em Kyoto. Em 1941 foi transferida para a região de Takakura (Roku Jô). Em 1962, por ocasião das comemorações dos 700 anos de Passamento do Mestre Shinran, foram construídas novas instalações em Okazaki. Mas devido ao grande número de aspirantes, em 1981 foi construído um novo complexo em Yamashina.

Em 1958, o então diretor Rev. Atsushi Nobukuni, foi quem idealizou as diretrizes educacionais do Senshû Gakuin. Não se trata de uma educação centrada no ser humano, “ser humano educando outro ser humano”, mas sim, “educar o ser humano para ser capaz de responder ao chamado do Nyorai (Tathagata)”, uma educação que tem como princípio fundamental “o ensino para responder ao Chamado (do Buda)”. Para tornar este ideal em realidade, professores e alunos convivem irmanados com o Buda Amida, no chamado “Brother System”. Tendo como ponto central o Honzon - Ícone Sagrado, alunos, professores e funcionários praticam o ensino e o Monpô (Escutar o Dharma) numa vivência comunitária. Estes ideais são mantidos sem alterações e sucedidos ininterruptamente.

Sobre a administração dos complexos instalados em Okazaki e Yamashina levando-se em conta as condições do número de novos alunos ingressantes, o desgaste natural das instalações, visando dar continuidade ao sistema de ensino mantido até agora, garantindo-se a manutenção para o futuro, resguardando-se o princípio do “ensino para responder ao Chamado do Buda”, em 2016 graças aos esforços de muitos, o complexo de Yamashina foi reformado. Iniciou-se então uma nova caminhada com novas instalações, para assim renovado, dar prosseguimento aos anseios da idealização da Otani Senshû Gakuin.

A vida no Senshû Gakuin

A vivência no Senshû Gakuin inicia-se com a aula sobre Tannishô às segundas-feiras. Durante a semana o que foi aprendido na aula é aprofundado em grupos de estudo, onde alunos discutem juntos suas impressões, opiniões e questionamentos. Durante um ano, alunos e professores têm como ponto central o estudo do Tannishô.

Apresentamos aqui, o dia a dia dentro do Senshû Gakuin:

O dia do aluno inicia-se cedo, às 6:30 da manhã. Após a faxina dos alojamentos, todos fazem a limpeza das instalações da escola. Os alunos escalados para preparar a primeira refeição levantam-se mais cedo, às 5:30 da manhã para iniciar os trabalhos de preparo da refeição de alunos e professores no refeitório localizado no andar térreo. A escolha do menu também é elaborada conjuntamente.

Às 7:45 da manhã, é realizado o Rito Matinal no auditório localizado no primeiro andar. Os alunos escalados para o Rito oficializam-no e realizam relatos de experiências (Kanwa). Depois, todos dirigem-se ao refeitório para juntos tomarem a primeira refeição do dia. Logo depois, alunos escalados passam a recolher e lavar a louça.

As aulas se dividem em Estudos de Budismo Shin, Estudos de Budismo Geral e Liturgia e Etiqueta Cerimonial. Além de matérias onde os alunos são divididos em pequenos grupos como as aulas de Hermenêutica Sagrada, Música, Kadô (Ikebana) e Sadô (Cerimônia do Chá).

Encerradas as aulas, até o Rito Vespertino, há um horário livre onde alunos relaxam jogando tênis de mesa, amigos conversam entre si, assim como alguns alunos estudam na biblioteca, cada um utiliza o horário livre conforme suas necessidades.

Às 5:00 da tarde inicia-se o Rito Vespertino. Após o jantar os estudantes retornam para o alojamento, onde duas vezes por semana ocorre o "meeting", para a discussão sobre as aulas de Tannishô, a vivência no Senshû Gakuin e outros temas pertinentes. Para os alunos, a vivência no alojamento é um importante local de aprendizado.

*Na Otani Senshû Gakuin, alunos, professores e funcionários convivem comunitariamente, ou seja, todos dividem o mesmo alojamento. Para tanto, existem regras rígidas como horário para acordar, faxina, controle de saídas e horário de toque de recolher (Mongen - fechamento dos portões). E ainda, durante a permanência no Senshû Gakuin dá-se muita importância ao convívio entre os colegas, e o horário de voltar-se para as pessoas ao redor, assim como voltar-se para dentro de si mesmo, e para tanto, é vetado o uso de telefone celular ou qualquer outro dispositivo de comunicação, bem como não há televisões.

O anseio da fundação da Otani Senshû Gakuin 
Rev. Shûzon Kono – Diretor

Quando me perguntam que tipo de Escola é a Otani Senshû Gakuin, tenho como resposta: Trata-se de uma Escola que “não escolhe, não rejeita, não abandona”.

Na entrada da nova escola, somos apresentados às palavras do ex-diretor, o Rev. Tishû Takenaka: "Vamos aprender o coração do Sesshufusha [1] do Buda Amida (que não escolhe, não rejeita, não abandona). Vamos realizar a Verdade, aquilo que nós mesmos almejamos fazer, aquilo que é necessário fazer, aquilo que podemos fazer, sem nos comparar com o outro, sem nos precipitarmos, sem desistir."

Estas palavras são as que melhor representam o ensino dentro do Senshû Gakuin.

A Otani Senshû Gakuin é a organização que forma Mestres da Ordem Shinshû Otani-ha. O nome Otani, refere-se a uma localização (toponímia) em Kyoto, além de ao mesmo tempo, ser o nome onde se localizou o primeiro mausoléu do Mestre Shinran, e onde ocorreu o encontro do Mestre Shinran com o Mestre Hônen. O nome Otani, para os fiéis do Shinshû, é o nome que simboliza o Nembutsu. Desejamos também que a Otani Senshû Gakuin seja uma escola onde à luz do Nembutsu, verdadeiramente pessoas encontrem-se com pessoas.



[1] 摂取不捨 é a garantia de que o Buda Amida assimila todos os seres viventes em sua Luz de Sabedoria, salvando a todos, sem jamais abandoná-los.

Matéria publicada no Jornal Dôbô Shinbun n.709 - dezembro/2016

Tradução e notas: Sayuri Tyō Jun

 
Otani Senshû Gakuin - Yamashina Kyoto


 
Okazaki Senshû Gakuin