10/01/2018

Sutra Ketsubon-Kyô e o Inferno exclusivo para mulheres


Desde os tempos primitivos no Japão, o sangue era considerado impuro e a partir deste conceito, a mulher como ser que menstrua todo mês e verte sangue ao dar à luz, também era considerada impura.

No século XV foi escrito na China um Sutra chamado Bussetsu Daizôshôkyô Ketsubon-Kyô 仏説大蔵正経血盆, inserido no Dainihon Zokuzô-Kyô 大日本続蔵 (Tripitaka Sino-japonês). O Ketsubon-Kyô é um pequeno Sutra de 420 ideogramas que descreve o Inferno do Lago de Sangue, um inferno exclusivo para mulheres. O Sutra justifica a impureza das mulheres que com seu sangue contaminam tudo à sua volta, lavando suas vestes sujas de sangue menstrual ou do parto nos rios, cuja água será fervida por “pessoas do bem” para se fazer o chá de oferecimento nos templos budistas e santuários shintoístas. 

As ideias contidas no Sutra alcançaram o Japão na Era Muromachi, condenando ao Inferno do Lago de Sangue, mulheres como Murasaki Shikibu, que com seus escritos teria desorientado as pessoas do caminho budista de libertação das ilusões, fomentando a luxúria e reforçando o apego. O Sutra condena tanto as mulheres que davam à luz como aquelas que não engravidaram, ou seja, eram condenadas apenas pelo fato de serem mulheres. 


Mas o Sutra não se limita apenas em condenar, mas também de salvar as mulheres, desde que se realizassem corretamente os ofícios memoriais, e no Inferno, as condenadas deveriam transcrever, fazer cópias do Sutra e leva-los sempre junto ao corpo, além de tomar refúgio no Sutra até que finalmente uma flor de lótus desabrochasse no meio do lago de sangue.


O Sutra Kestubon-Kyô desenvolveu-se junto à antiga ideia de que as mulheres não obteriam a Iluminação por possuírem os 5 Impedimentos ou Go-shô 五障 em seus corpos, ou seja a mulher é impedida de tornar-se Brahma, Indra, Deus Chakravartin, Rei dos Demônios ou Buda. Este conceito, de influência hinduísta, não faz parte do cânone budista, mas foi apoiada por parte do Sangha após a morte do Buda Shakyamuni. 


No Japão, na Era Kamakura começou a aflorar o Nembutsu Odori e difundiu-se a ideia de salvação das mulheres através do Nembutsu. Embora o 35º Voto de Amida ainda desse margem à interpretações errôneas como a de que mulheres só alcançariam a salvação se renascessem como homens, prevaleceu o conceito de não discriminação do Voto Original. E desde então o Sutra Ketsubon-Kyô caiu em desuso. 


Por fim, devemos considerar que o Buda Shakyamuni mesmo vivendo em uma época de forte domínio patriarcal e mesmo tendo relutado em abrir o Sangha para as mulheres, era totalmente consciente de que a discriminação não seria jamais coerente com o Dharma por ele pregado, e assim ele disse:

 “Há vários tipos de pessoas. Havendo aqueles com o coração menos nebuloso, haverá também aqueles com o coração bastante enevoado. Assim como existem sábios, da mesma maneira existem os tolos. (...)

Além disso, mesmo havendo uma distinção entre homens e mulheres, não existem diferenças na natureza humana. Se homens e mulheres praticarem o Caminho, percorrendo o caminho adequado a cada um, certamente atingirão a Iluminação (se tornarão Budas).”

Mahavagga 115

Pesquisa:  Sayuri Tyō Jun



Inferno do Lago de Sangue 血の池の地獄



06/12/2017

O Ensinamento que vem ao nosso encontro - A Recitação do ponto de vista do Budismo

Corações tomados pelo Shômyô – A Recitação do ponto de vista do Budismo (Revista Dôbô – novembro/2017)
O Shômyô – a Recitação é a manifestação do Buda em forma de Hôben – Meios Hábeis Salvíficos. E também é o encontro com o Buda e a alegria desse encontro que tomam formas.
Texto: Rev. Futoshi Takehashi

Versão: Rev.ª Sayuri Tyō Jun 


O Ensinamento que vem ao nosso encontro
Nos Ensinamentos do Jôdo Shinshû, não é dito que somos “nós que nos voltamos em direção à Verdade”, pelo contrário, diz-se que ‘a Verdade vem de encontro a nós’. Portanto a ritualística (liturgia) e a recitação são o trabalho de Amida dirigido a nós e que se torna visível diante de nossos olhos. Se não conseguirmos assimilar a ritualística e a recitação como manifestação do trabalho de Amida neste mundo em forma de sons audíveis, reduziremos toda nossa prática litúrgica meramente a uma prática do Jiriki (Próprio Poder), voltada apenas para a obtenção de algum favorecimento ou resultado desejado.


O Mestre Shinran, em sua obra Kyôgyôshinshô nos diz: “O Buda Amida pode tornar-se qualquer coisa para manifestar-se diante de nós”. 
“Desta maneira, Amida Nyorai manifesta-se em vários corpos: Corpo de Retribuição (Sambhoga-kaya), Corpo de Manifestação e Transformação (Nirmana-kaya)”.

O Trabalho de Amida manifestado como Hôben - Meio Hábil Salvífico 

No Budismo podemos posicionar a recitação e a ritualística como Hôben - os Meios Hábeis Salvíficos – orientações que os Budas e Bodhisattvas empregam e manifestam para que nós, seres carregados de paixões mundanas, possamos ser tocados pelos Ensinamentos. Em verdade, o pensamento budista afirma que o Budismo em sua totalidade, é Hôben. Os Sutras e os Tratados budistas são escritos para serem lidos enquanto que a Ritualística e a Recitação são para serem enxergados e escutados. O mesmo ocorre com os templos e suas edificações. Obviamente, são resultantes da expressão humana (coisas feitas pelo homem). Se pensarmos somente pelo nosso lado de seres humanos, ou seja, ‘a partir da nossa posição’, o Gokuraku Jôdo – a Terra Pura da Suprema Alegria, acaba desvanecendo-se como um mero sonho.

E não é bem assim, somente aqueles que sentiram a Verdade manifestar-se, é que conseguem enxergar o trabalho do Tathagata Amida como Hôben. A atuação do Hôben pode ser confirmada quando conseguimos perceber o quanto nós somos tolos, o quão somos realmente gratos, e até que finalmente, conseguimos pedir perdão e dizemos Namu Amida Butsu para consequentemente nossas cabeças, finalmente se abaixarem.

Não é que o Tathagata Amida esteja em algum lugar. Amida é o trabalho que atua e faz nossas cabeças se abaixarem. A Verdade é um Hôben que se manifesta de ‘lá para cá’ assumindo inumeráveis formas.
O Hôben manifesta-se em inúmeros formatos para captar a sensibilidade humana. Amida Nyorai é o Buda que se transforma até mesmo na voz e no som do Namu Amida Butsu.

O que é o Shômyô – A Recitação 

O que fazemos em meio à escuridão total? Concentramos nossos olhos e apuramos nossos ouvidos, não é mesmo? Quem é que nunca teve a experiência de ficar paralisado de medo, quando alguém gritou atrás de nós para nos assustar?

Realmente os sons possuem uma força capaz de nos fazer mover, tanto como nos paralisar. A vibração do som é capaz de alcançar a parte mais profunda da existência humana, e é extremamente difícil controlar sua projeção. Pois falar em voz alta pode fazer as pessoas moverem-se, mas essa mesma voz também pode ser direcionada para incitar a violência.

Penso que podemos afirmar que o Shômyô – a Recitação, é um cântico. O canto é o coração, o sentimento tomando forma. Não é que algo chamado ‘coração’, esteja em algum lugar. É o coração manifestando-se como melodia e ritmo através de um dispositivo amplificador que é a garganta. Desta maneira, o Shômyô – a Recitação, não é uma canção composta por uma só pessoa, é a manifestação da alegria do encontro com o Buda, que toma forma.

O Shôshinge é exatamente o cântico da alegria do encontro com o Buda. O Mestre Shinran, escreveu no Kyôgyôshinshô, na parte que antecede o Shôshinge: 

“Assim, refugiando-me nas verdadeiras palavras do Grande Sábio e voltando-me para os comentários dos veneráveis patriarcas, percebo a profundidade e a vastidão da benevolência do Buda e componho aqui o seguinte hino.”
(Versão do Autor: Aqui, conforme as palavras do Grande Sábio Honrado do Mundo, confirmando as palavras esclarecidas por muitos Mestres, crendo na incomparável e profunda retribuição do Buda, componho o Shôshinge.)

A parte final soa como se o Mestre Shinran nos conclamasse a cantarmos todos juntos. A recitação em coro do Shôshinge pode ser considerada como a audição dos Ensinamentos do Mestre Shinran, mas o ato de soltar a voz juntos e ao mesmo tempo e alegrar-se de corpo inteiro, não seria como se estivéssemos recebendo, destinatários que somos, do trabalho de Amida?

O Som Puro
O Shômyô – recitação e a Ritualística possuem pequenos detalhes em suas regras e formas, que se não forem respeitadas, o próprio Shômyô e a ritualística não têm razão de ser. O fato de haver uma fórmula pré-estabelecida, permite ser repetida inúmeras vezes a fim de ser aprendida e assim produzir uma atmosfera maravilhosa.

Quando os Sutras são lidos, é como se nós escutássemos a voz de Shakyamuni, quando entoamos juntos o Shôshinge, é como se escutássemos a voz do Mestre Shinran e quando acompanhamos a leitura solene das Epístolas do Mestre Rennyo, é como se escutássemos a voz de sua boca. Construir e abrir este universo onde podemos escutar as vozes dos Mestres, é a função do Shômyô e da Ritualística. A cada recitação, a cada rito, exprimimos repetidamente, o retorno ao local onde nos encontramos com o Buda e seu Dharma.

Para aqueles que já vivenciaram seu encontro com o Buda e seu Dharma, é na recitação e no rito, o momento de expressar sua gratidão e alegria. E por outro lado, para aqueles que ainda não tiveram o encontro, essas formas – recitação e rito - podem ser profundamente reveladoras.

As vozes em coro que recitam em uníssono o “Namu Amida Butsu”, assim como as vozes da recitação do Nembutsu no estilo “Bandô-bushi”, no Hô On Kô do Honzan, que bradam “Namu Amida Butsu” e ainda o Namu Amida Butsu que sai da minha boca - todas essas vozes compõem um mundo único. Mesmo sendo todas essas vozes, apenas vozes humanas, tornam-se e ecoam como um som puro que se manifesta a partir da Verdade e como tal, nos alcança.

“A voz sutil e alumbradora do Tathagata,

Eco hialino, ressoa nas dez direções”. (Tradução: Prof. Rev. Ricardo Mário Gonçalves in “Cantares da Aspiração do Nascer na Terra Pura”).
(Versão do Autor: A voz sutil do Tathagata, ecoa puro, não havendo lugar que não alcance. In “Tratado da Terra Pura” – Editora do Higashi Honganji, “Shinshû Seiten” p. 137)


Sobre o autor: Rev. Futoshi Takehashi. Nascido em 1962 em Hokkaidô, Japão. Doutor pela Universidade Ôtani em Estudos do Budismo. Após atuar como pesquisador no Instituto de Pesquisas Budistas do Higashi Honganji, atualmente é orientador do Departamento de Ritualística da Ordem Shinshû Otani-ha, lotado no Honzan em Kyôto.

 
本山報恩講の坂東曲 "Bandô-Bushi" Honzan




声明に心惹かれて (同朋雑誌 2017年11月)

「仏教の視点から」竹橋太さん 真宗大谷派儀式指導研究所研究員
声明は、方便として現れた仏の形。そして仏と出会った喜びが形となったもの。
 

「むこうから」の教え

浄土真宗は「こちから真実に」ということではなくて、「真実がむこうからやってくる」と教えています。だから儀式や声明は、「むこうから」という阿弥陀さまのはたらきかけが目に見える、音に聞こえる形でこの世に現れたものだ、といただくことがなければ、何か好ましい結果願うためにおこなう、自力の行法になってしまいます。

親鸞聖人は、『教行信証』で、「阿弥陀さまはどんなものにでもなって、私たちの前に現れてくださる」とおっしゃっています。

しかれば阿弥陀如来は如より来生して、報・応・化種種の身を示し現したまうなり。

方便としてはたらく

仏教において声明や儀式は「方便」と位置付けることができます。「方便」とは、仏や菩薩が表してくださった、私たち凡夫が教えに触れる手がかりのことです。実は仏教といわれるもの全てが方便なのだというのが仏教の考え方なのです。経典や論書は文字に書かれ読まれるもの、儀式や声明は目に見え、耳に聞こえるものです。寺院の伽藍も同じことです。

あたりまえですが、どれも人間の表現なのです。人間の側から、つまり、「こちらから」考えれば極楽浄土はただの夢物語だ、というようなことで終わってしまうことにもなります。

そうではなくて、そこに阿弥陀如来のはたらきを見、真実を感じた人にのみ、それが方便としてはたらいているということができるのです。方便といえるのは、「ああ自分は愚かだった」「本当にありがたい」「ごめんなさい」「南無阿弥陀仏」と自らの頭が下る、そういう出来事が起きたことになります。

どこかに阿弥陀如来がいるのではありません。私たちの頭が下げさせてくださるはたらき、それが阿弥陀如来なのです。真実は方便として「むこうから」さまざまな形をとって現れるのです。

方便には人間のさまざまな感覚に訴えるようにいろいろな形があります。阿弥陀如来は南無阿弥陀仏という声・音にまで成ってくださった仏さまとも言われています。

声明とは

暗闇で私たちが行うのはまず目を凝らし、耳を澄ませることでしょう。うしろから「わっ」と脅かされて心身ともにすくむような経験をしたことは誰にもあるでしょう。

本当にこの私自身をすくませるような、揺るがすような、そういう力が音にはあるのです。音の響きは人間という存在の深い部分に届く表現なのです。その分、方向は定め難い。大きな声を出して人を動かす、そんな、ある種、暴力的な方向づけもあるわけです。

声明は「歌」といっていいと思います。歌はこころが形になったものです。どこかに「こころ」というものがあるのではありません。こころが旋律や拍子、喉といった出力装置をつかって現れるのです。そして、声明は自分だけで作った歌ではありません。仏と出会った喜びが形となったものです。

「正信偈」もまさに出会いの喜びの歌です。親鸞聖人は『教行信証』の「正信偈」のまえにこう書かれています。

しかれば大聖(だいしょう)の真言に帰し、大祖(だいそ)の解釈(げしゃく)に閲(えっ)して、仏恩(ぶっとん)の深遠(じんのん)なるを信知して、正信念仏偈(しょうしんねんぶつげ)を作りて曰(い)わく。

(意: いまここに大聖世尊のみことばにより、大いなる祖師たちの説きあかされた言葉をたしかめて、仏の恩の深くはるかなることを信知して正信念仏偈を作っていう。)

最後の「曰く」は「さあ歌おう」という感じがします。「正信偈」を唱和することによって親鸞聖人の教えを聞くということもありますが、同時に声を出すことによって、この身全体で喜びをともにすることが、阿弥陀如来のはたらきをいただくこととなると思いませんか。

きよらかな響き

声明や儀式には細かい決まりや形があります。それを守らなければ儀式や声明は成り立ちません。形がきまっているのは、それを覚えることによって、何度も繰り返すことができますし、すばらしい雰囲気ができるようにということです。

お経が読まれているときは、私たちがお釈迦さまの声を聞いているように、「正信偈」を唱和するときは、親鸞聖人の声を聞いているように、お文を拝聴するときは、蓮如上人の声を聞くように、そういう世界を作ることが声明や儀式の役割です。出会いの場が繰り返し表現されるのです。

すでに出会っている人には、本当に感謝や喜びの表現になるでしょう。一方、まだ出会いのない人には、その形そのものが何かを訴えかけてくるでしょう。

みんなで唱和する「南無阿弥陀仏」という声、本山報恩講の坂東曲(ばんどうぶし)の「南無阿弥陀仏」という声、わたしの口から出た「南無阿弥陀仏」の声、それらが、一つの世界を作り、人間の声なのだけれども、きよらかな響きとなって、真実から私に届いた表現ともなるのです。

如来微妙声(にょらいみみょうしょう)

梵響聞十方(ぼんこうもんじっぽう)
(意: 如来の微妙の声、そのきよらかな響きは届かないところはない。)
出典/ 『浄土論』(東本願寺出版発行『真宗聖典』 137頁)

たけはし ふとし

1962年北海道生まれ。大谷大学大学院博士課程単位取得退学。専攻は仏教学。真宗大谷派教学研究所所員を経て、現在、真宗大谷派儀式指導研究所研究員、本廟部出仕。

本山報恩講の坂東曲 2017 Hô On Kô